quinta-feira, março 20

F E N O M E N A L


Alinhamento

Piano Intro
Ghetto Story
Waiting for Your Love
Where do We Go From Here
You Don’t Know My Name
Teenage Love Affair
Lady Marmalade
Got to Be There
Heartburn
Sure Looks Good to Me
How Come You Don’t Call Me
Butterflies
Goodbye
Send Me an Angel
Superwoman
I Need You Reckless Love
Diary/Tender Love
My Boo
Unbreakable
Like You’ll Never See Me Again
Gotta Give it Up/Soutrain
Feeling U, Felling Me
Go Ahead
A Woman’s Worth
Lessons Learned
So Simple
Karma
The Thing About Love
Fallin’
No One
If I Ain’t Got You (Encore)


"Alicia Keys: como lavar e encher a alma "

20.03.2008 - 14h25 Silvia Pereira, PUBLICO.PT

"O espectáculo começa com um vídeo que mostra um grupo gospel entregue a uma prece numa igreja. Não é uma igreja qualquer. É – simboliza – o modesto palco que primeiro testemunhou o talento da "pequena Alicia", como é apresentada pelo pastor, que a lança numa "viagem pelo mundo". Essa viagem trouxe-a a Lisboa pela segunda vez ontem à noite, onde colheu as sementes da boa memória deixada no Rock In Rio em 2004 e plantou outras tantas, com uma actuação que lavou e encheu a alma dos milhares de pessoas que a receberam num Pavilhão Atlântico esgotado.
A quantidade de "tour buses" à porta de serviço antecipa a grande produção que encontramos lá dentro: um palco com dois níveis em altura, todo ele ecrã. Patrice, o autor de "Nile", abre a noite em formato mais modesto, espalhando o seu reggae, numa actuação curta, por uma sala ainda a compor-se. Despede-se com "Soul storm", ciente da popularidade do tema e do quanto se adequa ao que se vai passar a seguir, quando passar o testemunho a Alicia Keys.
À saída da "pequena Alicia" da igreja, no vídeo, segue-se a entrada da "grande Alicia" em palco – grande em graça, classe, carisma, postura, sensualidade, voz. O concerto que se segue é tecnicamente perfeito (a acústica nem parece a do Atlântico, que tanto tem o hábito de trair os seus artistas), vem marcado pela simpatia e entrega de Alicia, é pautado por arranjos ligeiramente diferentes às canções e só peca, aqui e ali, por momentos que quebram a dinâmica geral (mas sem quaisquer traços soporíferos). "O meu nome é Alicia Keys", apresenta-se ela em português correctíssimo (alguém a recomende para aulas de pronúncia a outros artistas). Isto só no caso de "You don’t know my name". Cortina e palco tornam-se vermelhos e estamos num "Moulin rouge" que deixa brilhar as três vozes femininas que a acompanham, qualquer uma com personalidade vocal para ser atirada ao mundo. Por esta altura é evidente que o concerto vai alternar entre momentos de cor(eografias) e outros de maior intimismo em que, ao piano, Alicia vai revelando as páginas do seu diário.
O motivo do concerto é o último álbum, "As I Am". É de lá que vêm momentos como "Prelude to a kiss", balada dedicada às crianças africanas e pretexto para o apelo à participação numa campanha: "Toda a gente precisa de um anjo em alguma altura da sua vida", explica. "E todos o podemos ser o anjo de alguém". Mais uma dedicatória, desta vez a todas as super-mulheres (e aos homens que reconhecem uma quando a vêem): "Superwoman". "I need you", "Sure looks good to me" e "Like you'll never see me again" são outros dos novos temas.
A apresentação de "As I Am" é proporcional à visita aos álbuns anteriores. Para bem da alma dos fãs e do equilíbrio do alinhamento, não podiam ficar de fora temas como "Heartburn", "Butterflyz", "How come you don't call" (o público abafa-a com aplausos, Alicia pára, levanta-se, agradece e, em boa resignação, retoma o ritmo vocal ascendente, para voltar a ser abafada), "A woman's worth" (com um toque de reggae que a aproxima do poder intemporal de "No woman no cry"), "Diary" (um dos momentos mais bonitos da noite – palmas para Jermaine Paul) ou "Karma". "Fallin'", o rastilho de todo o sucesso que aqui se vê, é sabiamente guardado para o final, atiçando o trio de canções que vão rematar a noite. Correram quase duas horas de concerto, a porta fecha-se atrás de Alicia, mas ainda é cedo para o final. O pastor regressa ao ecrã para dar mais um empurrão. Ela regressa para "No one", o badalado single de "As I Am". Agora sim, terminou. Não, ainda não. Só há uma maneira de silenciar o público: voltar, agradecer com comoção o amor dos fãs e dedicar-lhes "If I ain't got you". Amor com amor se paga – a entrega de parte a parte deixa facilmente imaginar o clímax em que o concerto termina.
"Soul sister" de respeito
As luzes acendem-se e fica mais clara a diversidade dos rostos que compõem a multidão. Há uma maioria de mulheres, mas também há pais que trazem crianças e homens que pagam bilhete para vir com os amigos. Não é muito comum ver tamanha concentração de fãs do género masculino no espectáculo de uma cantora desta dimensão. Não sejamos ingénuos ao ponto de negar o "sex appeal" de Alicia, nem redutores ao ponto de atribuir a presença masculina apenas à sua beleza e sensualidade (no concerto de Beyoncé, por exemplo, havia rapazes, mas a maior parte ia acompanhado das respectivas).
Reconhece-se nesta "soul sister" um exemplo de seriedade e profissionalismo que transcende essas e outras matérias. Aparentemente, e ao contrário de outras vedetas, não se vislumbra por ali qualquer tipo de plástico. É uma estrela, mas não tem a atitude de quem está a anos-luz do comum dos mortais. É linda, mas prefere não cair nas imagens esterotipadas da mulher – e porventura gastas –, veiculadas por outros nomes do género. Não é uma diva, apesar de merecer totalmente o título. Apresenta-se como uma rapariga como as outras, que só foi diferente porque acreditou no sonho que tinha quando ainda cantava no coro da igreja de Hell's Kitchen. É esta a sua mensagem.
O resto é respeito. Alicia tem um monte de Grammys em cima da lareira que asseguram o aval da crítica, tem fãs das mais diversas estirpes musicais, tem uma segurança e pulso no que faz que desmente os seus 28 anos e tem a coragem de montar um espectáculo de encher o olho q.b. sem cair na vulgaridade nem recear perder a credibilidade que decorre desta sua aura de autenticidade.
Cenários e coreografias funcionam como ilustração, não como manobra de diversão. É importante que se oiça cada acorde do seu piano – que, juramos, é onde se sente mais feliz –; que se oiça cada curva e contracurva da sua voz certeira, cheia, ligeiramente rouca; que a força da interpretação e das palavras sirvam de inspiração. Terá alguma mulher – ou homem – saído de um concerto de Alicia Keys com garra para fazer das fraquezas força e com vontade de agarrar o mundo? Muitas, sem dúvida. É façanha que tem muito de rara e muito pouco de "pequena"."

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