Um regresso a casa, como tantos outros… o rádio como companhia, os planos de parar rapidamente no supermercado para comprar os bombons para o Morgadinho. O imprevisto…
A rotunda, matreira, como sempre, desta vez, fintou-me! O carro desliza, por trás! Instintivamente giro o volante todo para a direita, o carro não me obedece! Ganhou vida própria e não quer saber do que eu quero que ele faça! Sinto o forte embate no triângulo da rotunda, vejo o sinal de obrigatório circular pela direita à minha frente, grito! Nãããããããooooo! O carro, mais uma vez, não me obedece! Sinto-me mais uma vez a bater na estrada, passei para a faixa de sentido contrário, não vejo nada, a não ser a estrada e o mato à minha frente! As tabuletas da faixa contrária à minha frente! Ironia? Uma das tabuletas diz que os bombeiros são para a esquerda… Um pequeno toque nas tabuletas, o carro começa a subir e eu começo a ver os arbustos e árvores à minha frente, de pernas para o ar… O estrondo, o vidro do lado do pendura estilhaça-se! O embate final! Estou de novo no chão! De pernas para o ar, mas no chão!
Primeiro instinto, repor as coisas no sentido certo! Tiro o cinto de segurança que se portou de forma irrepreensível! De novo, as coisas no seu lugar! Desligo o rádio… Acho que era o Markl… não me estava a deixar ouvir o meu cérebro! Digo “foda-se, foda-se, foda-se…” repetidamente como se fosse a palavra mágica que iria fazer com que tudo o que acabou de acontecer se revertesse! Não reverteu!
Tento perceber se conseguirei sair pelos meus próprios meios. Eu estou bem! Não tenho dores, mexo-me, preciso sair! Não consigo sair, o único vidro que se partiu está mesmo em cima de um monte de silvas… Tento encontrar os telemóveis… Não os vejo em lado nenhum… Começo a buzinar, alguém há-de dar comigo ali… Imediatamente ouço uma voz: “Está bem?”, paro de buzinar. Já me encontraram! A voz, à qual só consigo associar um par de pés e umas calças de bombazina bege, diz-me para ter calma! Sorrio e respondo: Estou calma! Diz-me para tirar a chave da ignição, faço-o.
O senhor abre-me a porta, eu agarro na mala, em tudo o que vejo por ali, ponho dentro da mala! Encontro o telemóvel! Saio do carro. O casaco branco já tem uma outra cor, algum vermelho sarapintado no braço esquerdo… A mão esquerda, cheia de sangue, não larga a chave do carro!
Rapidamente avalio o meu estado e as condições em que poderei telefonar a alguém a contar o que se passou. Por segundos tenho um conflito interior, a quem ligo primeiro? Ligo ao chefe! Incansável, atencioso, preocupado, como sempre… A seguir à família… dizer, de viva voz, poucos minutos depois, que se teve um acidente, que o carro capotou, de forma descontraída e despreocupada…
Já tenho uma série de mirones… a GNR chega e pergunta-me se já chamaram o 112. Fico azul! Eu? Eu é que sei? Pergunto em voz alta a que admira o “espectáculo” se já chamaram o 112. Toda a gente olha para o lado, ninguém responde! Returco: por favor alguém chame o 112!
O senhor continua a agarrar-me no braço esquerdo, a falar comigo, a perguntar-me se me sinto “mareada”… Estou bem!
Chega a ambulância, o senhor ajuda-me a entrar e já não o vejo mais… acho que lhe agradeci… não tenho a certeza… Começa a conversa com os bombeiros! Sempre bem disposta! Com uma ligeira dor de cabeça mas cheia de sentido de humor… Faço a viagem até ao hospital na conversa…
Chego ao hospital, pulseirinha laranja. Radiografia à cabeça. Tudo OK! Dois pontitos na cabeça – com anestesia – que a médica percebeu que eu não ia achar muita graça à coisa! Está tudo bem! Mas, visto ser considerado acidente grave, ganho viagem até Leiria… Óh maravilha…
Chego ao hospital, pulseirinha amarela… Uma hora e meia à espera para me fazerem a TAC - só penso que passei o dia inteiro a pensar em ligar ao velhote e que tinha decido dar-lhe os parabéns presencialmente, quando chegasse para jantar- … a cabeça dói-me que se farta… dois bem-u-rons – abençoada enfermeira - Mais uma hora à espera para saber o resultado, está tudo ok! Agora só preciso de cópia do resultado da TAC para me darem alta… Cinquenta minutos depois a cópia aparece!
Finalmente saio! Já passa da uma da manhã! Estou cansada e tenho fome! O dia foi longo e atribulado…
O carro (que segundo a minha avó devia gostar muito de mim, porque foi muito meu amigo :P) ficou assim…