foto de José Goulão
"Ontem à noite, no Coliseu de Lisboa
Portishead: intimista é pouco
28.03.2008 - 12h04 Silvia Pereira, PUBLICO.PT
Depois do Porto, foi a vez de Lisboa matar saudades. A espera pelos Portishead tinha-se tornado longa demais. O Coliseu rebentou pelas costuras e pôs-se em bicos de pés para ter um vislumbre do grupo. Há coisa de uma década, esta banda conseguiu, a partir de Bristol, chegar ao íntimo de toda esta gente. Mesmo que Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley nunca regressassem, o efeito das músicas ficaria sempre gravado bem no fundo de todos. É por isso que descrever este concerto como intimista é dizer pouco.
Os fãs cresceram: alguns com a memória de um certo Sudoeste, muitos sem alguma vez terem visto os Portishead, todos em regozigo perante a partilha ao vivo de momentos tão grandiosos como "Mysterons", "Sour Times", "Wandering star", "Numb", "Roads" (guardado para a recta final) e "Glory box" (de "Dummy", 1994) ou "Cowboys", "All mine" e "Over" ("Portishead", 1997). É um regozijo atento, o do público, como que a medo de abafar qualquer desabafo daquela voz, ou melhor, daquela entidade capaz de transformar qualquer palavra, ideia ou sentimento num espectro de melancolia arrepiante.
Foi um concerto curto, mas deu para ver tudo: o que os Portishead eram, o que são e o que pretendem ser. Muito se falou deste regresso. Falou-se, especulou-se, criticou-se. Ontem ouviu-se o que a banda tem a dizer – aquilo que os rascunhos rabiscados do MySpace pouco deixavam perceber. Os Portishead não andaram só entretidos em estúdio a experimental sons futuros – saíram de lá com uma colecção de canções com poucas pontas soltas, mesmo considerando a pouca rodagem (depois na apresentação no Reino Unido, os concertos portugueses foram os primeiros da digressão europeia).
Se o caso é trip-hop, a banda investe ainda mais no lado "trip", onírico e algo esquizo, convidando o corpo a auto-hipnotizar-se com matéria mais orgânica e até, em vários momentos, a arriscar dançar e seguir uma onda mais "upbeat". Em resumo, o punhado de canções do aguardado "Third" – entre elas, "Silence", "Hunter", "The rip", "Magic doors" e "Machine gun" – não só foram bem recebidas, como evidenciaram a firmeza que tem o chão deste regresso. Coisa rara num concerto, uma banda conseguir tanta atenção para os novos temas.
Quanto à voz de Gibbons, está no ponto: sem asperezas e ainda mais maleável, cristalina e potente (consta que deixou de fumar e a verdade é que não acendeu um único cigarro). Apesar da postura sempre modesta e frágil, duas mãos no microfone e roupa preta, é para ela que o olhar foge, para aquele ar de "sem querer" que disfarça o forte magnetismo da sua voz e "persona".
Coisa rara, também, é este culto e amor a que os Portishead conseguem voltar sem uma beliscadela. Há amigos assim, que desaparecem da nossa vista e, quando voltam, parece que nunca chegaram a partir. É então que percebemos que nunca lhes chegámos a dizer "adeus", porque preferimos esperar pela altura de abrir os braços e dizer "bem-vindos outra vez". Lá no íntimo, sempre o soubemos."
Portishead: intimista é pouco
28.03.2008 - 12h04 Silvia Pereira, PUBLICO.PT
Depois do Porto, foi a vez de Lisboa matar saudades. A espera pelos Portishead tinha-se tornado longa demais. O Coliseu rebentou pelas costuras e pôs-se em bicos de pés para ter um vislumbre do grupo. Há coisa de uma década, esta banda conseguiu, a partir de Bristol, chegar ao íntimo de toda esta gente. Mesmo que Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley nunca regressassem, o efeito das músicas ficaria sempre gravado bem no fundo de todos. É por isso que descrever este concerto como intimista é dizer pouco.
Os fãs cresceram: alguns com a memória de um certo Sudoeste, muitos sem alguma vez terem visto os Portishead, todos em regozigo perante a partilha ao vivo de momentos tão grandiosos como "Mysterons", "Sour Times", "Wandering star", "Numb", "Roads" (guardado para a recta final) e "Glory box" (de "Dummy", 1994) ou "Cowboys", "All mine" e "Over" ("Portishead", 1997). É um regozijo atento, o do público, como que a medo de abafar qualquer desabafo daquela voz, ou melhor, daquela entidade capaz de transformar qualquer palavra, ideia ou sentimento num espectro de melancolia arrepiante.
Foi um concerto curto, mas deu para ver tudo: o que os Portishead eram, o que são e o que pretendem ser. Muito se falou deste regresso. Falou-se, especulou-se, criticou-se. Ontem ouviu-se o que a banda tem a dizer – aquilo que os rascunhos rabiscados do MySpace pouco deixavam perceber. Os Portishead não andaram só entretidos em estúdio a experimental sons futuros – saíram de lá com uma colecção de canções com poucas pontas soltas, mesmo considerando a pouca rodagem (depois na apresentação no Reino Unido, os concertos portugueses foram os primeiros da digressão europeia).
Se o caso é trip-hop, a banda investe ainda mais no lado "trip", onírico e algo esquizo, convidando o corpo a auto-hipnotizar-se com matéria mais orgânica e até, em vários momentos, a arriscar dançar e seguir uma onda mais "upbeat". Em resumo, o punhado de canções do aguardado "Third" – entre elas, "Silence", "Hunter", "The rip", "Magic doors" e "Machine gun" – não só foram bem recebidas, como evidenciaram a firmeza que tem o chão deste regresso. Coisa rara num concerto, uma banda conseguir tanta atenção para os novos temas.
Quanto à voz de Gibbons, está no ponto: sem asperezas e ainda mais maleável, cristalina e potente (consta que deixou de fumar e a verdade é que não acendeu um único cigarro). Apesar da postura sempre modesta e frágil, duas mãos no microfone e roupa preta, é para ela que o olhar foge, para aquele ar de "sem querer" que disfarça o forte magnetismo da sua voz e "persona".
Coisa rara, também, é este culto e amor a que os Portishead conseguem voltar sem uma beliscadela. Há amigos assim, que desaparecem da nossa vista e, quando voltam, parece que nunca chegaram a partir. É então que percebemos que nunca lhes chegámos a dizer "adeus", porque preferimos esperar pela altura de abrir os braços e dizer "bem-vindos outra vez". Lá no íntimo, sempre o soubemos."
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